Juros do rotativo do cartão: teto de 100% e como sair

O rotativo é o financiamento automático que o cartão faz quando a fatura não é paga por inteiro, e os juros do rotativo têm um teto legal desde janeiro de 2024: juros e encargos não podem passar de 100% do valor original da dívida. Mesmo com o teto, é uma das modalidades de crédito mais caras do país: a taxa média do rotativo foi de 435,9% ao ano em fevereiro de 2026, segundo dados do Banco Central divulgados pela Agência Brasil. Neste guia você entende como o rotativo funciona, o que o limite de 100% realmente protege, quanto uma dívida cresce na prática e como sair dele.

Atualizado em outubro de 2026. Este conteúdo é informativo e não substitui orientação profissional.

Resposta rápida

  • O rotativo financia o saldo não pago da fatura, mas só pode ser usado até o vencimento da fatura seguinte (Resolução CMN 4.549/2017, art. 1º).
  • Depois disso, o saldo só pode ser financiado em parcelamento com condições mais vantajosas que as do rotativo (art. 2º da mesma resolução).
  • Teto: juros e encargos não passam de 100% do valor original da dívida (Lei 14.690/2023), sem contar o IOF. Uma dívida de R$ 1.000 pode chegar a R$ 2.000, mais IOF.
  • Em fevereiro de 2026, a taxa média foi de 435,9% ao ano no rotativo e de 200,2% ao ano no parcelamento da fatura (dados do Banco Central, via Agência Brasil).
  • Para sair: conferir saldo e taxa, parar de usar o cartão, comparar parcelamento, crédito mais barato, portabilidade e renegociação.

Neste artigo

O que é o crédito rotativo do cartão

Quando a fatura fecha, o banco informa o valor total, a data de vencimento e um valor mínimo. Se você paga o total, não há juros. Se paga qualquer valor entre o mínimo e o total, a parte que ficou sem pagamento é financiada pelo emissor do cartão e volta na fatura seguinte acrescida de juros e encargos. Esse financiamento automático é o crédito rotativo.

A Resolução CMN 4.549/2017 determina que o saldo da fatura não pago integralmente no vencimento só pode ser financiado no crédito rotativo até o vencimento da fatura subsequente, ou seja, por cerca de um ciclo. Depois disso, o saldo remanescente pode ser financiado em linha de crédito parcelada, desde que em condições mais vantajosas para o cliente que as do rotativo, inclusive nos encargos. A norma também proíbe financiar de novo no rotativo valores que já foram parcelados.

Rotativo, parcelamento de fatura e parcelado do lojista

Os três nomes se confundem, mas são coisas diferentes:

  • Rotativo: financiamento do saldo não pago, válido por um ciclo de fatura. É a modalidade mais cara.
  • Parcelamento da fatura (crédito parcelado): o banco transforma o saldo devedor em parcelas fixas. Costuma ter juros menores que o rotativo, mas ainda altos. Em fevereiro de 2026, o Banco Central apontou taxa média de 200,2% ao ano nessa modalidade.
  • Parcelado sem juros do lojista: compra dividida em parcelas pelo estabelecimento, sem juros. Não é rotativo e não tem relação com atraso de fatura.

O limite de 100% nos juros do rotativo: o que a lei estabelece

A Lei 14.690/2023, conhecida como lei do Desenrola Brasil, prevê (art. 28, parágrafo 1) que o total cobrado a título de juros e encargos financeiros no crédito rotativo e no parcelamento da fatura não pode exceder o valor original da dívida. A regra vale desde janeiro de 2024 (a Rádio Senado informa 3 de janeiro). A Resolução CMN 5.112/2023 definiu os termos: juros são os remuneratórios; encargos incluem multa, juros de mora, tarifas e comissões; e valor original é o saldo financiado no rotativo ou no parcelamento da fatura. O IOF fica de fora dessa conta, segundo o Poder360.

Na prática: uma dívida original de R$ 1.000 pode chegar, no máximo, a R$ 2.000 em juros e encargos somados ao valor principal, mais o IOF, independentemente do tempo que passe. O teto impede que a dívida cresça sem fim, mas não reduz a taxa cobrada mês a mês. Ao divulgar os dados de fevereiro de 2026, a Agência Brasil observou que as taxas seguem variando sem queda expressiva ao longo dos meses, embora o rotativo tenha recuado 16,7 pontos percentuais em 12 meses; o limite atua sobre o tamanho final da dívida, não sobre o percentual mensal.

Quanto uma dívida no rotativo cresce: exemplo com contas

A taxa de 435,9% ao ano equivale a cerca de 15% ao mês (conversão de juros compostos). Os números abaixo usam essa taxa mensal para ilustrar a mecânica; a taxa real do seu cartão está no contrato e na fatura e pode ser diferente.

Linhas mostram a dívida de R$ 1.400 a 15% ao mês: sem o teto chega a R$ 3.238 em 6 meses; com o teto de 100% para em R$ 2.800 a partir do 5º mês.
Em seis meses, uma dívida de R$ 1.400 a 15% ao mês passaria de R$ 3.200 sem o teto; o limite de 100% a trava em R$ 2.800.

Exemplo: uma fatura de R$ 2.000 e um pagamento de R$ 600 no vencimento. Restam R$ 1.400 financiados. Supondo 15% ao mês e nenhum pagamento adicional, e desconsiderando IOF e multas por atraso:

  • Após 1 mês: R$ 1.400 x 1,15 = R$ 1.610 (R$ 210 de juros).
  • Após 3 meses: cerca de R$ 2.129.
  • Após 5 meses: cerca de R$ 2.816.
  • Após 6 meses, sem o teto: cerca de R$ 3.238.

Com o limite de 100%, os juros e encargos acumulados não poderiam passar de R$ 1.400, o que significa que o total devido não passaria de R$ 2.800. Nessa simulação, o teto seria atingido em cerca de cinco meses. Note o tamanho do efeito: em meio ano, quase 130% do valor financiado seriam acrescentados se não houvesse o teto. Para quem não consegue pagar, a conclusão prática é que o custo de esperar é enorme: o teto, embora importante, só passa a valer depois de a dívida ter dobrado.

Calculadora de juros de dívida

Veja em quantos meses você quita uma dívida, quanto paga de juros e quanto economiza pagando um pouco mais.

Valor que você deve hoje.
Taxa ao mês do contrato. Use 0 se não houver juros.
Pagamento fixo mensal.
Opcional. Quanto a mais por mês você poderia pagar.

Simulação ilustrativa, sem valor de recomendação. Resultados reais dependem das condições do seu contrato (juros, tarifas, seguros e IOF).

Comparação com outras saídas

Usando o mesmo saldo de R$ 1.400, veja quanto custaria quitar em 12 parcelas iguais em três cenários. Os valores são hipotéticos e calculados pela fórmula de parcelas fixas; as taxas dependem do banco e do seu perfil.

CenárioTaxa mensalParcela (12x)Total pago
Parcelamento da fatura na média de fevereiro de 2026 (200,2% ao ano)cerca de 9,6%cerca de R$ 201cerca de R$ 2.416
Empréstimo pessoal hipotético a 3% ao mês3,0%cerca de R$ 141cerca de R$ 1.688
Renegociação com taxa de 1,99% ao mês (como a prevista no Novo Desenrola)1,99%cerca de R$ 132cerca de R$ 1.588

A diferença entre a primeira e a última linha passa de R$ 800 sobre uma dívida de R$ 1.400. Isso explica por que a orientação geral dos educadores financeiros é trocar a dívida do cartão por uma de juros menores o quanto antes, desde que as parcelas caibam no orçamento.

Como sair do rotativo, passo a passo

  1. Descubra o saldo exato. No aplicativo do banco, veja o valor total da fatura, o quanto está em rotativo e a taxa mensal efetiva. Peça o Custo Efetivo Total (CET) da operação, que reúne juros, tarifas e impostos.
  2. Pare de usar o cartão para novas compras enquanto durar a recuperação. Novas compras entram na fatura seguinte e se somam ao saldo financiado.
  3. Calcule quanto sobra no mês. Some a renda líquida e subtraia moradia, alimentação, transporte, saúde e contas essenciais. O que restar é o teto realista para parcelas. O guia de como controlar gastos mostra como fazer esse levantamento.
  4. Compare as opções de pagamento: parcelamento da fatura no próprio banco, empréstimo pessoal em condição melhor, portabilidade do saldo (a Lei 14.690 assegura o direito de transferir o saldo da fatura para outra instituição, sem cobrança de custos pela instituição original) e renegociação direta com o emissor.
  5. Negocie por canal oficial. Use o aplicativo, o site ou a central do banco. Peça a proposta por escrito ou pelo próprio app e confira valor total, número de parcelas, taxa e data do primeiro vencimento. Detalhes sobre onde negociar estão em como renegociar dívidas.
  6. Quite primeiro o que custa mais. Se você tem outras dívidas, o rotativo costuma ter a taxa mais alta e merece prioridade, conforme o roteiro de como sair das dívidas.

Se a dívida já está atrasada há meses

Se o cartão já está em atraso prolongado, o caminho muda: entram em cena a negativação do CPF, campanhas de renegociação e, para quem não consegue pagar o conjunto das dívidas, a Lei do Superendividamento. O Novo Desenrola Brasil para famílias (desconto de até 90% e juros de até 1,99% ao mês para dívidas de cartão, cheque especial e crédito pessoal com atraso de 91 dias a 2 anos) ficou disponível até 31 de agosto de 2026, segundo o gov.br, e esse prazo já terminou. Uma nova fase, o Desenrola Brasil 3.0, foi instituída pela Medida Provisória 1.393 em 25 de setembro de 2026 para dívidas de até R$ 10.000 em atraso há mais de 720 dias, com renegociações previstas a partir de fevereiro de 2027, segundo a Serasa. Confira no gov.br as regras vigentes antes de planejar sua dívida em cima de um programa.

Erros comuns

  • Pagar sempre o mínimo. O mínimo evita o atraso formal, mas deixa quase todo o saldo no financiamento mais caro do mercado.
  • Parcelar a fatura sem comparar. A proposta que aparece no app é a mais conveniente para o banco, não necessariamente a melhor. Compare com outras instituições.
  • Confundir o teto de 100% com proteção contra juros altos. O teto limita o total, não o ritmo de crescimento.
  • Pagar boleto de renegociação sem conferir a origem. Golpistas imitam bancos e plataformas de cobrança. Veja dicas em golpes online mais comuns.
  • Trocar o cartão por outra dívida cara, como cheque especial, sem calcular o custo total.

Como não voltar ao rotativo

Quem já saiu do rotativo costuma ficar exposto ao mesmo risco no mês seguinte se o orçamento não mudar. Alguns hábitos reduzem a chance de recaída: definir um limite pessoal de gastos no cartão menor que o limite do banco, lançar compras parceladas em planilha para enxergar as faturas futuras, e manter uma pequena reserva para imprevistos. O texto sobre reserva de emergência explica como começar mesmo com renda baixa.

Perguntas frequentes

O que acontece se eu pagar só o mínimo da fatura?

O saldo restante entra no crédito rotativo e é cobrado com juros e encargos na fatura seguinte. O uso do rotativo é permitido apenas até o vencimento da fatura seguinte; depois disso, o saldo só pode ser financiado em parcelamento com condições mais vantajosas que as do rotativo.

O limite de 100% significa que posso pagar até o dobro da dívida?

Significa que juros e encargos somados não podem passar do valor original da dívida. Uma dívida de R$ 1.000 pode chegar a R$ 2.000 no máximo. O IOF fica fora dessa conta, e por isso o total pago pode superar um pouco o dobro. Se o banco cobrar acima disso, o consumidor pode reclamar ao próprio banco, ao Procon e ao Banco Central.

Parcelar a fatura é melhor que ficar no rotativo?

Em geral sim: a taxa média do parcelado é menor (200,2% ao ano contra 435,9% no rotativo em fevereiro de 2026) e a regra do Conselho Monetário Nacional exige que ele seja mais vantajoso que o rotativo. Mesmo assim, as taxas seguem altas; compare com outras alternativas antes de aceitar.

Rotativo negativa meu nome?

Estar no rotativo não negativa o CPF. A negativação ocorre quando a fatura (ou o parcelamento) fica em atraso e o credor decide registrar a dívida. A lei exige comunicação por escrito ao consumidor antes da inclusão no cadastro de inadimplentes.

Fontes

Conferência das fontes em 2 de outubro de 2026.

Conclusão

O rotativo deve ser tratado como emergência de curtíssimo prazo, não como forma de pagamento. O primeiro passo prático é abrir o aplicativo do banco hoje, anotar o saldo financiado e a taxa mensal e comparar essa taxa com ao menos duas alternativas de parcelamento antes de decidir.